31 de agosto de 2007

O problema da concentração de TI em SP (e RJ)

Tem um tema que me incomoda faz tempo, que é a excessiva centralização do Brasil em torno de São Paulo, e em menor escala, do Rio de Janeiro. Para quem trabalha no setor de tecnologia, essa concentração é preocupante. É ruim para todo mundo:

  • as empresas localizadas em São Paulo reclamam dos custos altos e da carência de mão de obra;
  • os profissionais de tecnologia reclamam que não há opção fora de São Paulo. Alguns vão e entopem ainda mais a cidade, e mesmo assim, não conseguem suprir toda demanda. Outros ficam e não conseguem se desenvolver, por falta de opção profissional.
  • as empresas que ficam fora de São Paulo tem seu crescimento limitado, pois o mercado é restrito.
O curioso nisso tudo é que o mercado global vive uma fase de crescimento acelerado. Há grandes oportunidades de 'outsourcing'. O Brasil tem uma posição forte nesse mercado e poderia crescer ainda mais, porém, para isso precisa equacionar melhor uma série de coisas. Acredito que a questão da concentração em São Paulo é uma delas. Vejamos alguns pontos:
  • Existem várias cidades no Brasil com índices de educação e qualidade de vida que podem sediar empresas fortes no segmento de TI, como é o caso de Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Salvador e Recife.
  • A infra-estrutura de telecomunicações já possui capacidade suficiente para suportar aplicações de colaboração, incluindo videoconferência e outras tecnologias de comunicação e cooperação em tempo real.
  • Atividades importantes, como hospedagem de datacenters, desenvolvimento de software e suporte podem ser feitas remotamente, usando os meios de comunicação citados.
Tenho a percepção de que em outros países, a concentração tende a ser menor do que no Brasil. Nos EUA, existem muitas empresas de software e TI sediadas na Califórnia, mas estão espalhadas por uma área relativamente grande se comparado com a cidade de São Paulo; isso tem impacto na qualidade de vida. Além disso, grandes empresas ficam fora dessa área, como é o caso da Microsoft, que fica no Estado de Washington, bem mais ao norte; e boa parte da pesquisa é feita na costa leste, em Massachussets. Outros segmentos são ainda menos concentrados - a indústria de chips tem presença forte no meio-oeste, e a indústria de telecomunicações tem presença na região de Boston e na Flórida.

A concentração traz um grande problema porque perpetua uma situação ruim. As pessoas vão para São Paulo porque só tem emprego lá; o mercado das outras regiões não se desenvolve; e a qualidade de vida em São Paulo só faz cair. A cidade está a ponto de um colapso urbano. A única forma de crescer, agora, é descentralizando, descarregando as operações em outros locais, de forma a criar um crescimento sustentado com uma base muito maior.

Porque as coisas no Brasil são assim? Um dos motivos é que nós gostamos de fazer negócio "olho no olho". Outro motivo é que nossa infraestrutura de transporte é historicamente deficiente, e as pessoas preferem não ter que viajar muito - perde-se muito tempo, custa caro, não é seguro, etc. Porém, se quisermos aproveitar o crescimento do mercado mundial, é importante que sejamos capazes de superar essa barreira.

Como superar esse problema? Essa é a parte mais complicada. As empresas de fora de São Paulo não conseguem ainda penetrar no mercado de lá. Apesar de reclamar da falta de mão de obra, o mercado corporativo paulistano se fecha à oferta de serviços terceirizados realizados à distância. Uma saída interessante seria através do estabelecimento de parcerias. As empresas de fora tem custos menores, e podem trabalhar com empresas de São Paulo oferecendo um serviço complementar ao que elas realizam. Aos poucos, esse processo pode ir validando o modelo de ter fornecedores externos. Outras idéias passam pela divulgação coletiva - grupos de empresas de uma cidade, divulgando seus serviços coletivamente, terão uma maior chance de penetrar no mercado fechado de São Paulo.

Quais são as armadilhas? Há muitas armadilhas no processo. Uma delas é que o cliente aceita um serviço realizado à distância, gosta do serviço, e pressiona para que o seu fornecedor o atenda a partir de uma base em São Paulo. Geralmente não há motivos técnicos para isso - são razões políticas, ou o simples conforto psicológico de saber que o fornecedor está ali do lado, mesmo que isso não faça a menor diferença. É importante saber lidar com esse tipo de situação, que no final traz resultados ruins para todos. Os custos aumentam, a qualidade de vida cai, e o crescimento do país continua concentrado.

Uma outra armadilha é simplesmente a questão da vaidade política. Acredito que em pelo menos um caso isso foi determinante: a transferência da área de TI da Oi de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro. Na minha visão (estritamente técnica) não há motivos pelos quais uma empresa do porte da Oi não possa manter sua área de TI operando fora do Rio de Janeiro. A diretoria pode ficar lá, sem problemas; com uma estrutura de gestão profissional e ferramentas adequadas, é possívl gerir uma operação de TI em qualquer lugar do mundo. Ao levar a operação toda para o Rio, a Oi causa um grande impacto no mercado de Belo Horizonte; porém, para si própria, cria uma situação de aumento de custos. Estando em uma outra cidade, ela poderia ter uma mão de obra mais barata e mais ligada à empresa; estando em uma cidade como o Rio de Janeiro, passa disputar as melhores pessoas com dezenas de outras empresas, todas pagando "peso de ouro".

Essa é uma opinião que com certeza, gera controvérsia. Sinto que se pudermos trabalhar essa questão, vai ser possível melhorar a competitividade do Brasil no cenário mundial. Vamos levar desenvolvimento a vários lugares do Brasil, melhorar a qualidade de vida, e manter os custos baixos. Todos ganharemos com isso.

7 de agosto de 2007

Mais que grana

Vi uma frase fantástica, daquelas que eu gostaria de ter escrito, sobre a Internet e o bem público:

"But I don't want to live in a world where the only thing the Internet is useful for, or effective at, or pleasant or fun, are activities where someone is making money from me."

Não dá pra não assinar embaixo. Mesmo vivendo de comunicação de dados, e dependendo do "business" da Internet como ganha-pão, a verdade mais pura é simples - a Internet é mais do que um negócio. É mais do que um shopping. É mais do que comércio. Só começamos a arranhar o potencial da Internet como ferramenta para o bem público. Quem sabe iniciativas como inclusão digital conseguirão ampliar o seu potencial, transformando o mundo em um lugar melhor para viver.

4 de agosto de 2007

Ninguém lembra da infraestrutura

Primeiro foi o apagão. Depois, as estradas. Agora, o caos aéreo. Nos últimos anos, a gente se acostumou no Brasil ao noticiário de crise após crise. Tudo por falta de cuidado com a infraestrutura. O governo nunca sabe bem porque. A gente (que paga impostos) também paga a conta.

Essa semana, ruiu uma ponte nos EUA. Fatalidade? Não, o problema é pior. A infraestrutura dos EUA está esfarelando. O país mais rico do mundo tem problemas por todo lado: estradas ruins, aeroportos com a capacidade estourada, falta de água potável, estouro na geração e distribuição de energia elétrica.

O que é que há de errado? No Brasil dá para dizer que falta dinheiro. Mas o que justifica que o mesmo problema esteja ocorrendo - mais lentamente, mas em escala muito maior - no país mais rico do mundo?

Acho que o problema se explica justamente no nome. Infra. É o que está por baixo, o que ninguém vê. A gente só percebe o quanto precisa dela quando falha. É mais ou menos como se estourar, comendo carne vermelha e gordura saturada a vida inteira, e se surpreender quando o coração avisa que não dá mais. O que ninguém vê vai ficando em segundo plano.

No caso da saúde, com todas as dificuldades, o problema se resolve com a conscientização individual. Afinal, a saúde é sua, o problema é seu, você resolve. E mesmo assim pouca gente se mexe. Mas como resolver o problema coletivo? Como convencer as pessoas que o problema também é de cada uma delas? Essa é uma pergunta que na minha opinião, está longe de ser respondida.

26 de julho de 2007

Assimetria de interesses

Se você quer ser lido, escreva bem e escreva pouco. Se você quiser que o trabalho da sua equipe seja realmente produtivo, escreva bem e escreva pouco. Invista seu tempo escrevendo. A economia vale a pena.

Existe uma assimetria de interesses entre o autor e o leitor. O autor investe tempo na criação de conteúdo, enquanto o leitor investe tempo para consumir o conteúdo. Se cada um pensar apenas em si, o tempo do outro não interessa.

De que lado a corda arrebenta? Antigamente - quando o conteúdo era escasso, caro e difícil de encontrar - a corda arrebentava do lado do leitor. A gente comprava o livro que tinha para comprar ou ficava sem saber. Porém, a possibilidade de pesquisar (viva Google!) mudou a equação. É cada vez mais fácil achar o que se quer. Cabe agora ao autor respeitar o tempo do cliente.

O YouTube mostra bem o que está acontecendo. Basta ver a duração média dos clipes disponíveis - coisa de três, quatro, cinco minutos. Nos blogs bem sucedidos, existe uma tendência de escrever "posts" no estilo "short message". Um parágrafo, conteúdo concentrado. Redigir bem, e redigir textos curtos, é responsabilidade do autor.

No trabalho, eu passo por chato, porque insisto que resumir as informações é responsabilidade de quem envia, e não de quem lê. Se você recebe um documento de 100 páginas e dá forward para dez pessoas, está desperdiçando o tempo de todas elas. Se você já leu, pode escrever um resumo - o tempo que vai gastar para fazer isso é com certeza muito inferior ao tempo total que as dez pessoas gastarão para ler. E é tudo tempo da empresa, no fim das contas.

(Agora, se você não leu o documento de 100 páginas, para que está encaminhando para outras pessoas?)

9 de julho de 2007

Will The Real Open Source CRM Please Stand Up? | Open Source Initiative

I have posted a comment on the VTiger x SugarCRM, on a very interesting discussion asking "if there's a true open source CRM" in the market. Worth reading (the article, not necessarily my post).

6 de julho de 2007

Desenhando soluções viáveis

Soluções criativas são sempre interessantes. Assistindo a uma palestra do TED sobre a evolução do design baseado nas necessidades humanas, ouvi falar pela primeira vez sobre o projeto KickStart.

A KickStart é uma ONG que se especializou em criar ferramentas para combater a pobreza. O raciocício é simples: se existem empreendedores nos países ricos, também devem existir nos países pobres; o que lhes falta é a oportunidade de exercer o seu espírito empreendedor. Um dos problemas é que as ferramentas que usamos no ocidente não são adequadas para esses pequenos empreendedores; elas custam caro, são complicadas e difíceis de manter, e na maioria dos casos não refletem a realidade de um país africano. Assim, a KickStart oferece algo parecido com "kits", de tecnologia simples, desenhados para resolver problemas específicos ligados à realidade da região assistida. Existem kits para prensar óleo de girassol, para bombeamento de água para irrigação, e para construção civil.

Usando um modelo de negócios baseado em soluções simples e baratas, a KickStart já conseguiu alavancar mais de 50.000 novos pequenos empreendimentos em países pobres como Tanzânia e Quênia. Os negócios gerados por essas empresas representam um percentual ainda pequeno, mas mensurável do PIB desses países.

Pergunta: Se esses números são possíveis em países que estão efetivamente muito mais atrasados do que o Brasil, o que seria possível fazer por aqui?

5 de julho de 2007

Olha-olha-olha a água mineral

"Olha olha olha a água mineral
Especial
Você vai ficar legal
!"

Uns dez anos atrás, li uma matéria que projetava o crescimento do consumo de água engarrafada como uma das grandes tendências de mercado. Na época, pensei, "mas porque a gente iria pagar por água se temos água filtrada de boa qualidade em casa"? Pois é. Dez anos se foram, e hoje, o mercado de água mineral é um dos mais cresce no mundo todo.

A lógica do mercado de água mineral é um tanto quanto discutível. Pagamos por um produto que custa quase nada na torneira. A qualidade não é tão diferente assim, pelo menos aqui em Uberlândia ou em Belo Horizonte - não posso dizer em outras cidades do Brasil. Para cada garrafinha de água chegar ao consumo, consumimos energia elétrica para engarrafar e refrigerar; combustível, para distribuir; e ainda poluimos o ambiente com milhões de garrafinhas.

O irônico nisso tudo é que eu sou pessoalmente um aficcionado por água com gás. Esse ano, na minha viagem de férias de janeiro, fiz questão de ir na fonte da água mineral em São Lourenço, só para beber água com gás direto na fonte (isso mesmo, já sai da fonte com as bolhinhas). Depois fui em Cambuquira, onde a água é ainda melhor, apesar do abandono da fonte. O que atrai nesses lugares, tanto quanto a pureza e o sabor da água, é a história por trás dela - coisa que a água engarrafada muitas vezes apenas "encena", criando marcas e nomes míticos para fontes que não tem o mesmo charme.

Os argumentos pró e contra a água engarrafada são muitos. Uns dizem que é indefensável pagar um real por algo que a natureza dá praticamente de graça, cujo custo vem quase que exclusivamente do processo de distribuição e marketing. Já outros argumentam que é uma substituição simples - se você tomasse uma Coca-cola, iria poluir o ambiente tanto quanto ou mais, e ainda iria fazer mal para a saúde. Optar pela água não representa custo adicional. Sei lá. É algo que de alguma forma incomoda, e que precisa ser melhor pensado.

p.s. Só depois de ter escrito esse post, fiquei sabendo de um protesto na Internet contra a Nestlé pela exploração predatória do parque das águas de São Lourenço. Mais lenha para por na fogueira.

Atendente também é gente

Algumas idéias de marketing conseguem fugir totalmente do comum. Uma cadeia de fast food nos EUA bolou uma campanha muito legal: jogue uma mão de "papel, pedra e tesoura" com o caixa, e se você ganhar, tem um dólar de desconto.

O legal nem é o desconto. O legal é que você joga com o atendente, que geralmente é visto apenas como um robô, numa relação totalmente impessoal. De repente, um simples jogo torna a relação muito mais humana.

Levando a idéia adiante, o que podemos fazer, nas nossas empresas, para quebrar o gelo da mesma forma? Não é fácil imaginar algo tão eficaz como o jogo acima. Uma brincadeira mal pensada pode até depor contra a imagem da empresa. Mas vale a pena pensar nisso.

2 de julho de 2007

A bolha e a utopia tecnológica

Poucas coisas caracterizam tão bem a vaidade e a ambição humana como a utopia tecnológica, o desejo de resolver todos os problemas através da tecnologia. A (melhor) ficção científica está cheia de exemplos de idéias tecnológicas maravilhosas (como a produção de tecidos humanos em laboratório) que dão errado (vide "Blade Runner").

A ficção científica clássica é idealista. Porém, vivemos agora em tempos egoístas. A revista Forbes elaborou uma lista de quinze coisas que você gostaria que alguém inventasse. Entre útil, o curioso e o ridículo, alguém sugeriu... uma bolha para que a pessoa possa viver dentro, sem contato com o ruído e a sujeira do ambiente externo. Não consigo imaginar idéia mais ridícula, mas o pior é perceber que tem gente influente (foi entrevistado pela Forbes!) que realmente quer viver desse jeito. Assim a humanidade vai longe...

14 de junho de 2007

Menos!

Vivemos no mundo do "mais". Maior, mais rápido, mais eficiente, mais conectado. Vivo nesse tempo, e admito, sou viciado em trabalho. Fico até altas horas na frente do micro, lendo, estudando. Já liguei para meus colegas de trabalho as 11 da noite, pra saber se terminaram alguma coisa, ou como está a agenda de amanhã. Porém, agora, sinto que preciso reduzir esse ritmo.

Sinto falta do mundo do menos. Fazer menos coisas, mais devagar. Poder pensar melhor. Ter tempo para discutir com os amigos. Aliás - ter tempo de fazer amigos. Coisas que o ritmo alucinante da sociedade atual não permite. A sociedade quer "mais". O segredo do "menos" é saber viver com essa cobrança sem se deixar levar por ela.

Admito uma ponta de inveja das pessoas que conseguem viver no mundo do "mais" sem esforço aparente. Não estou falando daqueles workaholics famosos, que dormem 4 horas por noite, plugados em BlackBerry e tocando mil projetos ao mesmo tempo. Em geral, são pessoas que se tornam insuportáveis de conviver, pois não se conformam que as pessoas à sua volta não lhes sigam o ritmo obsessivo. Não se conformam que os outros possam ter metas menores do que aquelas que eles mesmos se impõem. Estou falando de gente que faz vários projetos sim, e contribui de forma significativa para a sociedade, mas que não faz nenhum alarde da produtividade insana. Gente que se dá o direito de tirar férias, de visitar amigos, de dormir até mais tarde. Será que elas, na verdade, dominaram o segredo do "menos"?

11 de junho de 2007

F1, segurança e... YouTube

Sempre gostei de F1, assisto desde novinho. (Lá vai tempo). Um dos "prazeres proibidos" de assistir corridas é a chance de ver um acidente espetacular; é o tipo da coisa que dá uma curiosidade danada, mas que ninguém em são consciência jamais desejaria para qualquer pessoa.

Já vi vários acidentes na F1, sempre pela TV (nunca fui numa corrida apesar de sempre pensar nisso). Assisti, entre outros, o acidente que matou Ronnie Peterson nos anos 70, o acidente que matou Gilles Villeneuve, e o acidente que matou Ayrton Senna. Mas também vi o acidente do Burti em Spa, a capotada sensacional do Gugelmin em Paul Ricard, sem contar as dezenas (literalmente) de acidentes do Andrea De Cesaris. E fazia tempo que não se via um acidente grande "de verdade" na F1, até ontem. No GP do Canadá, aconteceu um acidente horroroso com o Robert Kubica, uma das boas promessas da nova geração de pilotos. O comentário do Niki Lauda foi sintomático - "no meu tempo uma batida dessa dava para matar o piloto duas vezes". Ou mais.

Agora, sabendo que tudo está bem com o polonês, começa a investigação das causas e de como um acidente dessa magnitude pode ser minimizado. A imagem oficial da TV não é boa, mas uma câmera localizada na arquibancada próxima "grampo" pegou uma imagem fantástica. Obviamente foi postado no YouTube. Selecionei algumas imagens, dá para analisar a trajetória do carro:





A batida foi do pior tipo possível, o carro "decolou" quando transitou da pista para a grama na área de escape. A câmera oficial dá a impressão que o carro "chapa" de frente no muro, o que obviamente não é verdade. Nota-se que o carro bate num ângulo de mais ou menos 45 graus, o que permite que um pouco da energia seja dissipada. Note que o carro também "trisca" o muro atrás do qual havia outro carro, mas felizmente não toca nele.

O mais impressionante é o resultado final. Um tornozelo quebrado e um baita susto. Palmas para a segurança dos carros modernos, mas também, palmas para o YouTube, que nos permite ver essas imagens exclusivas... sem ficar dependendo das redes de TV.

Blogando

Normalmente eu reservo o "blog principal" para idéias mais trabalhadas, e usava outros blogs para postar sobre outros assuntos. Acho que fazia isso por medo de perder a "identidade" do blog. No entanto, o que isso causa? Medo de postar qualquer coisa, e o blog vai ficando para trás.

Por isso, não se assustem se encontrarem posts mais aleatórios do que nunca no blog a partir de agora. Fica sendo meu blog e pronto.

12 de abril de 2007

Subculturas

A Internet é cada vez mais um lugar diversificado. Este fenômeno se comprova a cada dia. A população original da Internet era predominantemente ligada ao meio acadêmico, e se comunicava em inglês. Quem não soubesse inglês, ficava de fora, ou era ativamente discriminado. Hoje o inglês ainda é considerado a lingua franca da Internet; porém, em termos absolutos, a situação se inverteu e a maioria dos usuários que só se comunica no seu próprio idioma. Quem só navega páginas em inglês pode estar perdendo tendências importantes.

O interessante é ver como esse fenômeno foi largamente ignorado. Nos anos 90, a elite da Internet temia que esta acabasse, vítima da fragmentação causada pelos provedores de conteúdo. Diga-se de passagem, sempre achei que as pessoas dão importância demais para os provedores de conteúdo. Mas lembrando Andy Warhol, a era dos 15 minutos de fama chegou. Blogs e YouTube são ferramentas para que cada um se faça ouvir. Em 2006, o "homem do ano" da revista Time foi... você. You. E no final das contas, quem está fragmentando a Internet não são as empresas, e muito menos os governos (que vem tentando exercer seu controle com cada vez mais força). São as pessoas.

Como toda transformação, a mudança da Internet "english only" para uma Internet realmente globalizada é lenta mas irresistível. O fenômeno só não é mais visível hoje devido à dificuldade que as empresas vem encontrando de capitalizar o potencial das comunidades. Cada comunidade representa uma subcultura, que se organiza de forma mais ou menos autônoma em torno de algum interesse comum. É a subcultura do Orkut (grande suficiente para ser vista da Lua), a subcultura do Kazaa, ou a subcultura dos oekakis (já havia ouvido falar disso?).

Falando o óbvio, a grande oportunidade está nas ferramentas que permitem que as pessoas consigam encontrar as coisas que realmente lhe interessam. Hoje é óbvio, mas não era em 1999, quando o Google foi fundado. Na época a grande onda eram os portais (olha aí a obsessão pelo provedor de conteúdo manifestada ao máximo). O principal motivo pelos quais os portais falharam foi a sua incapacidade de se adequar às reais necessidades das pessoais, de entender as subculturas da Internet.

No fundo, não estamos vendo nada de novo. Há quem ache que a massificação é um fenômeno recente; no entanto, a história mostra que ela é um fenômeno social cíclico. A massificação não escala tão bem como muita gente imagina. Todos os grandes movimentos sociais da história foram seguidos de fragmentação. Por isso, achar que as ferramentas de comunicação em massa permitiriam uniformizar o consumo ad infinitum é um grande engano. Dentro de uma massa uniforme, as pequenas diferenças logo se destacam, atingem massa crítica, e levam ao surgimento de subgrupos e subculturas. Com o tempo a diferença se torna tão grande a ponto de se tornar incontrolável. A Internet é apenas mais um meio para que essa propriedade intrínseca dos grupos sociais se manifeste. Por isso, sejamos todos bem vindos à nossa, à sua, à nova Internet.

12 de março de 2007

A irresistível sede de comunicação

O que nos faz humanos? O que nos faz diferentes de tantas outras formas de vida? Uns dizem que é a consciência. Outros dizem que é a presença da alma. Outros dizem que é a linguagem. Qualquer que seja a resposta, o fato é que o ser humano tem uma sede irresistível por comunicação, com o mundo e com seus semelhantes. Nesse contexto, a Internet é apenas mais um meio de comunicação, em uma lista que se estende desde os primeiros rituais pré-históricos, passando pela invenção da palavra falada, até o mundo moderno. Somos ainda os mesmos animais tribais. Temos sede de nos relacionar.

O curioso é que esta sede, de tão onipresente, passa muitas vezes despercebida. Empresários, engenheiros e marqueteiros investem incontáveis horas criando novos modelos de negócio em telecomunicações. Muitos desses modelos se centram em outras necessidades do ser humano. O desejo de status; a busca do entretenimento, da diversão; a necessidade de informação. Porém, nessa busca, a necessidade primária do ser humano é muitas vezes relegada a segundo plano.

Acho curioso ver empresas de telecomunicações e tecnologia investindo milhões para desenvolver novos negócios, envolvendo mídia digital, quando o próprio negócio de comunicação inter-pessoal ainda poderia render muitos dividendos. Acho que é um pouco como aquela história do patrício que perdeu as chaves no meio da rua e estava procurando debaixo do poste, porque lá tinha mais luz. Pensar no negócio de conteúdo é tentador porque envolve glamour, envolve status, e também porque é aparentemente mais simples, porque toda comunicação é unilateral. A indústria de Hollywood é a luz embaixo do poste.

Pensar no negócio da comunicação inter-pessoal é mais complicado, e também mais arriscado. Não há como controlar o conteúdo envolvido. A mesma rede que usamos para conversar com nossos parentes distantes sustenta a Al Qaeda. Porém, a sede de comunicação do ser humano é inextinguível.

Fica portanto uma idéia para as operadoras de telecomunicações: esqueçam o conteúdo. Pensem nos seus usuários. Pensem no que eles precisam para se comunicar. Tornem a experiência agradável. Tornem os sistemas convenientes de usar. Facilitem a vida das pessoas. Deixem que elas encontrem-se umas às outras. Permita a elas que multipliquem sua rede de relacionamento. Elas vão se comunicar, como tem feito desde que o homem veio ao mundo. O efeito de rede será avassalador.

29 de novembro de 2006

Ciência divertida

Uma das minhas melhores memórias de infância é dos kits de ciências que eu ganhei, lá por volta dos meus dez, onze anos de idade. Pois é - eu já era 'nerd' naquela época! Havia um kit de uma enciclopédia, não me lembro o nome agora, que vinha com experiências interessantíssimas de química, magnetismo, eletricidade (com bobinas, motores, etc.), eletricidade estática...

Passado um bom tempo, há poucos anos atrás - em 2002 - visitei um museu de ciências em St Louis, EUA. Achei fantástico como eles conseguiam demonstrar conceitos científicos avançados com kits siomples, fáceis de entender, e muito acessíveis. Cheguei a pensar na idéia de investir um pouco do meu tempo para montar alguns kits e fazer demonstrações em escolas públicas para crianças carentes, de forma a despertar nelas a curiosidade pelo mundo natural. Mas infelizmente, esta é uma idéia que ainda está só na intenção.

Hoje existem muitas formas interessantes de se fazer ciência divertida, mas mesmo assim muito educativa. Alguns sites se especializam em divulgar brinquedos científicos. Há empresas que se especializam em vender produtos antes impensáveis, como supermagnetos, do tipo que deixa até os MythBusters de queixo caído. Esses ímãs de metais raros, como Neodímio, possuem força suficiente para mover objetos a distâncias maiores do que se imagina, e precisam ser manipulados com cuidado para evitar acidentes graves. Por outro lado, eles são capazes de efeitos magnéticos inacreditáveis.

Já existe no mercado brasileiro um brinquedo com esferas magnéticas para construir figuras. Imagino que não sejam tão fortes como os citados acima, mas devem ser bastante divertidos. Depois de ver isso tudo, fiquei mais animado a comprar algumas esferinhas para ver como funciona!

22 de novembro de 2006

Tecnologia para todos

O que falta para que a tecnologia da informação possa estar ao alcance de todos? Segundo Jakob Nielsen, um dos "papas" da usabilidade, existem três níveis de isolamento digital a serem vencidos:

  1. Isolamento econômico
  2. Dificuldade de uso
  3. Falta de envolvimento pessoal
O isolamento econômico é, de todos esses fatores, aquele onde foi feito maior progresso. A lei de Moore permitiu a disseminação de computadores em todo o mundo. Projetos como o One Laptop Per Child almejam colocar tecnologia nas mãos da população de baixa renda de países em desenvolvimento. Ainda há muito a ser feito, mas as perspectivas são boas.

A dificuldade de uso já é um ponto mais complicado. Sabe-se hoje como desenhar produtos fáceis de serem usados; porém, porque isso não acontece? Apesar de todos os avanços da tecnologia, ainda parece haver um prazer perverso em ignorar a demanda dos usuários comuns. O Joel Spolsky escreveu recentemente sobre isso, criticando as nove opções para desligar o Windows Vista, enquanto um produto bem sucedido como o iPod não tem botão liga-desliga (graças a uma decisão pessoal do Steven Jobs!). Há também sites na Web mal organizados, programas que parecem ter sido feitos para torturar seus usuários, menus de auto-atendimento telefônico que deixam os usuários desesperados para conversar com um ser humano.

Uma das explicações é a dificuldade que os engenheiros tem em entender a diferença entre o que as pessoas acham que querem e o que elas realmente querem. Em resumo, se você perguntar para qualquer pessoa, ela listará inúmeros recursos que deseja em um produto. Ao juntar tudo que todo mundo quer, o resultado fica inevitavelmente confuso, e não agrada a ninguém. Encontrar o meio-termo é um processo complexo - há quem diga provocativamente que não se deve ouvir o cliente - mas é isso que diferencia o design de alguns poucos produtos entre tantos disponíveis no mercado.

O último nível de isolamento é a falta de envolvimento pessoal. Esse é, segundo o Nielsen, o mais complicado de todos. Em um mundo de possibilidades infinitas, apenas uma pequena fração das pessoas colabora efetivamente. A falta de envolvimento é um fenômeno difícil de reverter, porque está enraizado no comportamento individual. Se uma fatia maior da humanidade se envolvesse, o potencial multiplicador da Internet poderia se realizar em sua plenitude. É um problema que com certeza ainda atravessará gerações e só será superado através da educação através de novos paradigmas.

21 de novembro de 2006

A verdadeira história do iPod

Li hoje um artigo na Wired sobre a história do iPod. Entre os pontos altos do artigo, dois chamam a atenção: o relato da experiência do autor do artigo ao apresentar o primeiro iPod diretamente para Bill Gates, em um jantar ocorrido no mesmo dia em que o iPod era lançado; e a visão de Steven Jobs, que acredita que o iPod resume com perfeição a meta da Apple como empresa, pois funde "tecnologia, facilidade de uso, e um design impressionante". Vale a leitura!

Um teclado para lá de interativo

Há poucos dias, estava discutindo com amigos as possibilidades das futuras interfaces de usuário para PCs. Aqui no blog, apontei duas dessas possibilidades, que são os monitores de grandes dimensões e as ferramentas digitais wireless para interagir com o display, atuando como legítimas ferramentas manuais, só que sobre um meio digital.

Nessa conversa, surgiu também uma idéia incipiente, mas que me pareceu pouco praticável na hora: ter um display LCD horizontal à disposição, que poderia funcionar como um "tablet" interativo ou como teclado sensível ao toque. O problema desse design é a falta de "feedback mecânico", ou seja, daquela sensação de que algo se moveu com a pressão dos dedos. Mesmo em um mundo digital, ainda temos que respeitar essa necessidade humana pela realidade física, que faz prever que elementos como o teclado ainda vão estar presentes por um bom tempo nos nossos PCs.

Assim, pensando nessas possibilidades, fiquei surpreendido ao ver o projeto do
teclado Optimus. É um produto absolutamente surpreendente - um teclado que possui pequenos "displays" LCDs debaixo de cada tecla, de forma que os símbolos que são "escritos" em cada tecla podem ser reconfigurados dinamicamente. A idéia é excepcional, pois permite avançar e muito no grau de interatividade que o teclado oferece como interface de usuário. Por exemplo, programas que oferecem um grande número de "atalhos" podem tratar o teclado como uma "toolbar" dinâmica; ao pressionar a tecla CTRL, por exemplo, as teclas podem exibir os ícones das ferramentas ativas para cada tecla.

Hoje em dia, esse tipo de tecnologia ainda é muito cara - o teclado está saindo por cerca de US$ 400. Mas não há nada que impeça a popularização dessa idéia, a um custo muito mais acessível a curto prazo. E mais: independente da viabilidade dessa idéia em particular, é fabuloso pensar até que ponto a inventividade ainda pode nos surpreender, trazendo desenhos absolutamente inovadores mesmo para algo tão antigo como o tradicional teclado.

13 de novembro de 2006

A próxima revolução da informática

Desde a introdução do PC - há vinte e cinco anos - a indústria da informática serviu como alavanca para um desenvolvimento sem precedentes na história. Além da indústria em si, o computador serve como ferramenta para alavancar outros setores do conhecimento humano, gerando cada vez mais desenvolvimento. Hoje em dia, há quem acredite que a próxima revolução da humanidade virá por meio de uma nova tecnologia. Há vários candidatos, como a engenharia genética, a biotecnologia, os nanorobôs, a ciência dos materiais exóticos, entre tantos outros. Porém, acredito que a maior alavanca ainda continuará com o setor de informática. Uma segunda revolução, de maior impacto do que a primeira, se aproxima.

Nos próximos 25 anos, veremos ganhos de produtividade ainda maiores. Ainda não arranhamos o potencial multiplicador da Internet. A interação hoje ainda se restringe às conversas, via email, chat, MSN, ou VoIP. O grande ganho ocorrerá com o amadurecimento de um modelo viável para aplicações interativas multiusuário na rede. Some-se a isso uma nova revolução na maneira de construir computadores, e mais ainda, de interagir com eles. Os primeiros passos nesse sentido ainda são rudimentares: chips "multicore", aplicações Web, e por aí vai. Porém, assim como o PC original e seus predecessores pavimentaram o caminho para a popularização da informática, essas novas idéias estão hoje funcionando como terreno fértil para novas experiências de potencial imenso.

Alguns avanços são fáceis de prever. A tecnologia sem fios deve continuar crescendo, viabilizando a famosa "computação ubíqua", onde dispositivos informatizados farão parte de nosso dia a dia, trocando informações sem contato físico. A fronteira entre documentos e aplicações se tornará cada vez mais tênue. Serão todos objetos, vivendo na rede, permitindo a interação paralela de várias pessoas, oferecendo um campo sem precedentes para o trabalho colaborativo.

A riqueza da experiência física, que é inerente ao ser humano, será enriquecida nesse novo mundo virtual. Novas interfaces visuais, aproveitando monitores de grandes dimensões (30 polegadas ou mais) irão transformar o acanhado "desktop" em uma legítima mesa de trabalho. Ferramentas manuais irão interagir nesse espaço de trabalho; assim, ao invés de clicar em um pincel para fazer um traço, vamos pegar um pincel 'wireless' e passar sobre a tela, obtendo o efeito desejado com todas as sutilezas do movimento. No outro extremo, dispositivos móveis irão nos acompanhar, ajudando a organizar a informação que nos cerca.

Para que tudo isso se torne realidade, muita coisa ainda precisa acontecer. Algumas ainda estão nos laboratórios das grandes corporações mundiais. Outras idéias estão na cabeça de criadores solitários, esperando o momento certo para serem implementadas. Outras tantas ainda estão por nascer, aguardando as condições ideais para seu surgimento. O importante, nesse momento, é ter a percepção do futuro brilhante que nos aguarda, e trabalhar para participar da sua construção. É essa percepção que me anima; e é o sonho de participar desse futuro que me leva adiante.

4 de novembro de 2006

A falácia do anonimato e o futuro da identidade digital

Uma das grandes novidades da Internet, como meio de interação social, foi a possibilidade de anonimato, tida pelos defensores da privacidade individual como uma grande conquista. Porém, esse mesmo anonimato serve para acobertar atividades ilícitas, ilegais, ou simplesmente inconvenientes. Discute-se hoje como o mau comportamento online está inviabilizando o anonimato. Na Coréia, o problema tem atingido grandes proporções, e alguns ISPs pressionam o governo para proibir os 'brigões' de acessar a Internet. Aqui no Brasil, a discussão está centrada no Orkut, com inúmeros processos na justiça correndo para retirar perfis difamatórios, comunidades difamatórias, ou comunidades com conteúdo ilegal.

Brigas à parte, a situação revela o quanto ainda falta caminhar para implantar um conceito razoável de identidade digital na Internet. Os críticos mais ferrenhos da identidade digital a vêem como um passo inevitável em direção do Big Brother. Outros apontam a necessidade de meios confiáveis de certificar a identidade do indivíduo, não apenas para transações comerciais, mas como um meio de afirmação da sua individualidade. O certo é que a identidade digital, quando mal utilizada, tem um potencial de destruir o próprio conceito de privacidade.

Entendo que a privacidade é um bem a ser preservado; porém, em nome da segurança, o valor do anonimato precisa ser corretamente avaliado. Na sociedade "real", é possível agir anonimamente; porém isso é complicado, ou no mínimo inconveniente, o que oferece um certo nível de equilíbrio entre a liberdade individual e a segurança coletiva. Já na sociedade virtual, é muito fácil agir anonimamente. Esta facilidade encoraja a formação de grupos com idéias destrutivas, e dificulta seu rastreamento, levando a problemas como os que estamos vivendo agora.

A chave do processo está em encontrar mecanismos que desencorajem o anonimato. No entanto, soluções excessivamente rigorosas podem ter o efeito contrário, tornando a vida online inconveniente (pela quantidade de controles envolvidos), ou até mesmo perigosa, pelo risco da monitoração constante. Por isso, o equilíbrio é fundamental. Não acredito que a humanidade vá se permitir chegar ao nível do Big Brother, com a perda completa da liberdade individual; acredito sim que chegaremos a um ponto onde poderemos controlar o grau de exposição pessoal, em troca de maior ou menor conveniência, atingindo assim um equilíbrio entre a privacidade individual e a segurança coletiva.