13 de novembro de 2006

A próxima revolução da informática

Desde a introdução do PC - há vinte e cinco anos - a indústria da informática serviu como alavanca para um desenvolvimento sem precedentes na história. Além da indústria em si, o computador serve como ferramenta para alavancar outros setores do conhecimento humano, gerando cada vez mais desenvolvimento. Hoje em dia, há quem acredite que a próxima revolução da humanidade virá por meio de uma nova tecnologia. Há vários candidatos, como a engenharia genética, a biotecnologia, os nanorobôs, a ciência dos materiais exóticos, entre tantos outros. Porém, acredito que a maior alavanca ainda continuará com o setor de informática. Uma segunda revolução, de maior impacto do que a primeira, se aproxima.

Nos próximos 25 anos, veremos ganhos de produtividade ainda maiores. Ainda não arranhamos o potencial multiplicador da Internet. A interação hoje ainda se restringe às conversas, via email, chat, MSN, ou VoIP. O grande ganho ocorrerá com o amadurecimento de um modelo viável para aplicações interativas multiusuário na rede. Some-se a isso uma nova revolução na maneira de construir computadores, e mais ainda, de interagir com eles. Os primeiros passos nesse sentido ainda são rudimentares: chips "multicore", aplicações Web, e por aí vai. Porém, assim como o PC original e seus predecessores pavimentaram o caminho para a popularização da informática, essas novas idéias estão hoje funcionando como terreno fértil para novas experiências de potencial imenso.

Alguns avanços são fáceis de prever. A tecnologia sem fios deve continuar crescendo, viabilizando a famosa "computação ubíqua", onde dispositivos informatizados farão parte de nosso dia a dia, trocando informações sem contato físico. A fronteira entre documentos e aplicações se tornará cada vez mais tênue. Serão todos objetos, vivendo na rede, permitindo a interação paralela de várias pessoas, oferecendo um campo sem precedentes para o trabalho colaborativo.

A riqueza da experiência física, que é inerente ao ser humano, será enriquecida nesse novo mundo virtual. Novas interfaces visuais, aproveitando monitores de grandes dimensões (30 polegadas ou mais) irão transformar o acanhado "desktop" em uma legítima mesa de trabalho. Ferramentas manuais irão interagir nesse espaço de trabalho; assim, ao invés de clicar em um pincel para fazer um traço, vamos pegar um pincel 'wireless' e passar sobre a tela, obtendo o efeito desejado com todas as sutilezas do movimento. No outro extremo, dispositivos móveis irão nos acompanhar, ajudando a organizar a informação que nos cerca.

Para que tudo isso se torne realidade, muita coisa ainda precisa acontecer. Algumas ainda estão nos laboratórios das grandes corporações mundiais. Outras idéias estão na cabeça de criadores solitários, esperando o momento certo para serem implementadas. Outras tantas ainda estão por nascer, aguardando as condições ideais para seu surgimento. O importante, nesse momento, é ter a percepção do futuro brilhante que nos aguarda, e trabalhar para participar da sua construção. É essa percepção que me anima; e é o sonho de participar desse futuro que me leva adiante.

4 de novembro de 2006

A falácia do anonimato e o futuro da identidade digital

Uma das grandes novidades da Internet, como meio de interação social, foi a possibilidade de anonimato, tida pelos defensores da privacidade individual como uma grande conquista. Porém, esse mesmo anonimato serve para acobertar atividades ilícitas, ilegais, ou simplesmente inconvenientes. Discute-se hoje como o mau comportamento online está inviabilizando o anonimato. Na Coréia, o problema tem atingido grandes proporções, e alguns ISPs pressionam o governo para proibir os 'brigões' de acessar a Internet. Aqui no Brasil, a discussão está centrada no Orkut, com inúmeros processos na justiça correndo para retirar perfis difamatórios, comunidades difamatórias, ou comunidades com conteúdo ilegal.

Brigas à parte, a situação revela o quanto ainda falta caminhar para implantar um conceito razoável de identidade digital na Internet. Os críticos mais ferrenhos da identidade digital a vêem como um passo inevitável em direção do Big Brother. Outros apontam a necessidade de meios confiáveis de certificar a identidade do indivíduo, não apenas para transações comerciais, mas como um meio de afirmação da sua individualidade. O certo é que a identidade digital, quando mal utilizada, tem um potencial de destruir o próprio conceito de privacidade.

Entendo que a privacidade é um bem a ser preservado; porém, em nome da segurança, o valor do anonimato precisa ser corretamente avaliado. Na sociedade "real", é possível agir anonimamente; porém isso é complicado, ou no mínimo inconveniente, o que oferece um certo nível de equilíbrio entre a liberdade individual e a segurança coletiva. Já na sociedade virtual, é muito fácil agir anonimamente. Esta facilidade encoraja a formação de grupos com idéias destrutivas, e dificulta seu rastreamento, levando a problemas como os que estamos vivendo agora.

A chave do processo está em encontrar mecanismos que desencorajem o anonimato. No entanto, soluções excessivamente rigorosas podem ter o efeito contrário, tornando a vida online inconveniente (pela quantidade de controles envolvidos), ou até mesmo perigosa, pelo risco da monitoração constante. Por isso, o equilíbrio é fundamental. Não acredito que a humanidade vá se permitir chegar ao nível do Big Brother, com a perda completa da liberdade individual; acredito sim que chegaremos a um ponto onde poderemos controlar o grau de exposição pessoal, em troca de maior ou menor conveniência, atingindo assim um equilíbrio entre a privacidade individual e a segurança coletiva.

28 de outubro de 2006

Mantendo referências

Um vídeo com o Jack Black postado no YouTube me levou ao Shifting Baselines, uma iniciativa que propõe uma visão mais firme sobre a questão do impacto ambiental. Apesar de ligada ao surfe, como esporte e como iniciativa de vida, a proposta vai muito mais longe do que isso, e pode ser aplicada de forma geral a qualquer tipo de ambiente.

O que é um shifting baseline? É a perda de referência, causada pela mudança lenta de alguma coisa. Pode ser algo sem maior impacto, como achar normal a ritmo de um jogo de futebol hoje em dia (antigamente era muito mais lento). Mas pode ser também o fato de não notarmos mais a degradação do meio ambiente à nossa volta.

O site tem vídeos que colocam qualquer um para pensar. Um deles mostra um vídeo do fundo do mar. Maravilhoso, diria qualquer pessoa... mas depois o mesmo vídeo é mostrado... com peixes! A mensagem é simples: antigamente, haviam muito mais peixes no mesmo lugar. Os peixes vem sumindo lentamente... e nós perdemos a perspectiva. Continuamos achando o lugar lindo para mergulhar, sem perceber o quanto já foi destruído.

A proposta da organização é simples: vamos nos manter alertas para as mudanças lentas, de forma que nossa referência não mude. Não basta evitar entrar na água poluída, é preciso lembrar que antigamente era não era poluída! Somente mantendo nossa referências íntegras podemos obter resultados reais. O mesmo vale para outras experiências - por exemplo, a correria do dia a dia, o trânsito, a violência urbana, a qualidade do ensino, ou a limpeza das ruas. É preciso ter uma referência correta, ao invés de simplesmente achar normal qualquer degradação ambiental, ou cultural, ao nosso redor.

23 de fevereiro de 2006

Vida plena

Há gente que gosta de curtir o tempo, ver ele passar. Há quem prefira não fazer nada. Há também quem fique estressado pelo simples fato de parar para respirar, como se fosse preciso viver cada segundo em um ritmo acelerado.

Durante um bom tempo, fui um desses estressados natos. A idéia de ficar à toa me aflige. Ainda acho que o tempo que vivemos é muito valioso para ser desperdiçado. Porém, o tempo traz um pouco sabedoria para entender que correr nem sempre é viver. Há valor, e muita vida, em pequenos momentos de tranquilidade. Há o ócio criativo, aquele que nos permite alçar vôos mais altos. Também há que fazer opções. Nem tudo é possível, somos todos limitados.

O tempo é um só, e não adianta quer ser tudo, ou fazer tudo. Há que se contentar com muita coisa. Com coisas que os outros fizeram, e que achamos que poderíamos ter feito melhor. Com coisas que nunca vamos poder fazer, seja porque não temos competência, seja porque não temos condições materiais, seja porque temos que fazer opções e alguma coisa acaba tendo que ser deixada para trás.

Em resumo, é necessário entender que uma vida plena exige equilíbrio. Significa viver sem se queimar, fazer a diferença dentro do possível. A ansiedade deve ser substituída não pela resignação conformista, mas pela admiração frente a um mundo que é muito maior do que nós, e pela humildade de desempenhar papéis pequenos e cumprir com dedicação a parte que nos cabe.

17 de janeiro de 2006

Liderança silenciosa

'Leading Quietly' é um livro sobre liderança diferente dos outros. A grande maioria dos livros escritos sobre liderança foca os 'grandes líderes', pessoas que mudaram o mundo. O autor chama a atenção para o engano que se comete; para cada grande líder, há inúmeras pessoas que simplesmente querem 'fazer a coisa certa', exercendo liderança de forma quieta e sutil. Estas pessoas não tem sobre si os holofotes da fama, mas nem por isso são menos efetivas. Pelo contrário -- elas são essenciais, e são elas que dão o suporte necessário aos grandes líderes.

Outro ponto positivo do livro é que ele não se apresenta como um guia rápido, estilo 'auto ajuda'. É um material para ser lido e pensado. O estilo de escrita é agradável, o que facilita o trabalho. Cada capítulo discute um princípio básico:

  1. Seja realista
  2. Confie na combinação de motivos (éticos... e egoístas)
  3. Ganhe tempo
  4. Invista com sabedoria
  5. Vá fundo no problema
  6. Contorne (não quebre) as regras
  7. Ajuste, teste e escale gradualmente
  8. Monte uma solução de compromisso
  9. Observar três virtudes silenciosas: comedimento, modéstia e tenacidade.
É importante observar que a lista de princípios acima não deve ser tomada como uma simples coleção de regras a serem observadas; elas são mais do que isso. O importante muitas vezes não é seguir as regras, mas entender (e incorporar) o seu caráter, a sua personalidade. Afinal, regras como 'ganhar tempo' podem (e frequentemente são) abusadas. O caráter ético, e a vontade de 'fazer a coisa certa', é que dão à liderança silenciosa a sua força e efetividade.

4 de novembro de 2005

O problema é de comunicação

Minhas últimas conversas de boteco só confirmaram para mim o que já vinha suspeitando. O grande problema do mundo corporativo é a comunicação. Comunicação humana, digo. As pessoas não sabe explicar o que querem, não conseguem comunicar o que pensam. Não sabem organizar suas idéias, não sabem escrever. Não sabem ler. Não sabem ouvir.

Acredito que a raiz de tudo está na preguiça de ler e escutar. As pessoas aprendem pelo exemplo. Sem leitura não se desenvolve a capacidade de escrever. Sem escrever e sem escutar as idéias dos outros, ninguém aprende a organizar as próprias idéias. Por isso, os negócios sofrem. São atividades mal feitas, projetos inacabados, e pessoas que simplesmente não se envolvem com a solução dos problemas porque, entre outras coisas, isso exige capacidade de comunicação. Capacidade de conversar com o cliente; capacidade de conversar com o chefe para convencê-lo de que algo deve (ou não deve) ser feito; capacidade de vender o peixe.

Tem quem acredite que o mundo é dos espertos, ou dos vendedores. De certa forma é, porque justamente estas pessoas tem o que falta a outras. Não adianta ser competente, se você não se faz entender. Pior ainda, não adianta ser competente se você não procura entender o que te pedem. Por isso, quem reclama de não ter chances poderia olhar para si mesmo, e perguntar: será que eu sei me comunicar? será que estou ouvindo e falando na medida certa? A resposta talvez desagrade.

Errata: falando em dificuldade de comunicação, a primeira edição deste artigo tinha alguns erros simples, incluindo uma frase duplicada, pelos quais peço desculpas...

10 de outubro de 2005

Quadrinhos

Durante um bom tempo, fui fã de quadrinhos. Quando era criança, ler gibis era coisa normal, comum: Turma da Mônica, Pato Donald (as histórias da série do Superpato eram o máximo!), e outros. Depois, me interessei por histórias diferenciadas, como a série Asterix, com um humor um pouco mais sofisticado. Mas houve uma fase que eu achei particularmente interessante, que me leva ao blog de hoje.

No fim dos anos 80, começaram a surgir no Brasil as chamadas "Graphic Novels". Eram um produto diferenciado para a época. Ao invés da impressão em papel de terceira categoria, papéis especiais, e tintas fortes. Foi quando mestres como Frank Miller, Alan Moore, e Bill Sienkiewiks ficaram conhecidos. Na época, fiquei fascinado pelo traço dos artistas, e pela forma contavam histórias: com profundidade, com complexidade, com uma perspectiva humana. Ao longo dos anos 90, a influência desses artistas se expandiu para o cinema. Nos anos 60, os filmes e seriados de super herói ganharam uma aura kitsch que quase custou a eles todo seu espaço de mercado, graças a produções como o famoso Batman da TV. Mas nesta nova fase, os filmes de super heróis ganharam uma nova vida, e não foi só por causa dos efeitos gráficos melhores, mas principalmente pelas histórias mais sólidas. Se hoje temos Homem Aranha (1 e 2), Quarteto Fantástico e X-Men, é em grande parte graças a estes artistas que revitalizaram os quadrinhos. Mesmo hoje -- Sin City (do mesmo Frank Miller que reinventou o Batman) é um dos grandes sucessos de crítica este ano, e V de Vingança (V for Vendetta no original em inglês) é aguardado com grande expectativa para 2006.

Semana passada, depois de muitos anos sem ler quadrinhos, sem nenhum motivo em particular, fiquei folheando as revistas em uma banca. Várias das histórias que eu mais gostei foram reeditadas - caso de Watchmen, que ficou marcada por uma frase forte ("quem vigia os vigilantes?"), e que incidentalmente é a referência fundamental para o ótimo "Os Incríveis", da Pixa; e o Cavaleiro das Trevas, que é uma grande leitura até nos dias de hoje. Na banca, senti um pouco o excesso de oferta, principalmente pela grande quantidade de mangás de qualidade duvidosa, assim como as histórias bem desenhadas, mas sem o mesmo conteúdo forte da fase áurea das Graphic Novels. Suspeito que naquela época de mercado embrionário, somente as melhoras obras mereciam uma aposta na publicação. Hoje o mercado amadureceu, e esse tipo de HQ já tem público cativo no Brasil. Mas que fica mais difícil garimpar as gemas legítimas em uma banca, isso fica.

5 de outubro de 2005

Um ano ou cinco

"Some people seem to think that we got where we are overnight. Not so. I've been doing Linux for 15 years, and hey, if it takes another 5 or 10 for the desktop to be a big part of the market, that's what it will take." Business Week: Torvalds' Baby Comes of Age
Já ouvi dizer, não me lembro exatamente de quem, que nós temos uma tendência a superestimar o que podemos fazer em um ano, enquanto subestimamos o que podemos fazer em cinco. O resultado é ruim: ansiedade em tentar fazer o impossível, frustração por não atingir as metas de curto prazo. Deveríamos viver mais lentamente, entendendo que o tempo capitaliza as mudanças de uma forma progressiva; assim chegaríamos mais longe.
A frase do Linus Torvalds sumariza bem este pensamento. Todo ano é tido como 'o ano do Linux'. No fim do ano, analistas comentam que apesar das melhorias, o Linux ainda não emplacou. Falta pensar no longo prazo. Se olharmos as estatísticas, a cada ano a fatia de mercado do Linux aumenta. Pra quê ficar ansioso, e querer dominar o mercado em um ano? Se é para demorar cinco, ou dez, que seja assim. Pena que seja tão difícil entender as coisas dessa forma.

2 de outubro de 2005

Cinema, plebiscito, e a falácia do consenso

Li hoje que a indústria de Holywood finalmente começou a admitir que a queda de faturamento que ocorreu este ano não se deve à alta do petróleo ou o terrorismo internacional, mas sim porque os filmes eram ruins mesmo. E eram, isso é fato. O artigo também comenta que o conservadorismo dos estúdios faz com que filmes independentes, que assumem maiores riscos, pareçam bons em comparação.

Esta história me leva a pensar em outra relacionada: até que ponto dá para acreditar na opinião das pessoas? Em outras palavras, será que as pessoas sabem realmente o que querem? Eu sinceramente duvido. Em um teste de audiência, imagino que muita gente possa considerar o final de um filme ruim, pedindo uma mudança -- um final feliz, por exemplo. Mas este mesmo final feliz pode tirar toda a graça da história; ironicamente, na intenção de agradar, o filme pode acabar se tornando um fracasso.

Acho que muitas vezes, nós precisamos ser provocados. Precisamos da polêmica, precisamos discordar. Ao tentar agradar a todos, a indústria do cinema consegue apenas se tornar asséptica e sem sabor. Mas será que ela é a única a fazer isso? Suspeito que não. A busca do consenso é uma das grandes falácias da democracia (segundo Churchill, o pior sistema de governo que existe excetuando todos os outros). Não há muita opção, é verdade, mas o risco existe.

Todo este argumento nos leva ao plebiscito sobre a proibição de venda de armas. Não sei se este plebiscito é uma boa idéia. Ao forçar uma decisão, cria-se uma polarização total, cujo resultado pode ser imprevisível. Se a possibilidade da venda de armas for mantida, podemos começar a viver uma nova era, incluindo aí a possibilidade de marketing de armas, e até de uma 'corrida às armas' caseiras. A . Já o voto no 'sim' também oculta riscos semelhantes; que o desarmamento seja acelerado em um país que hoje ainda não oferece as condições de segurança para que ele seja levado às últimas consequências. O pior é que, qualquer que seja o resultado, vai ficar a dúvida: será que as pessoas sabem realmente o que querem?

22 de setembro de 2005

A verdadeira revolução de VoIP está por vir

Em tecnologia, o tempo é sempre difícil de avaliar. É fácil ficar entusiasmado com uma nova idéia e imaginar que ela vai tomar o mundo em um ano. No mundo real, o ciclo de adoção é muito mais lento. Muitas boas idéias são dadas como mortas, pois demoram um pouco para amadurecer, e reaparecem anos depois.

Este é o caso da tecnologia de VoIP. Talvez poucos se lembrem (ou saibam) mas lá pelo idos de 1996, um programinha chamado "CUSeeMe" era muito popular entre os pioneiros da Net. Era um programa de videoconferência baseada em IP, que rodava em hardware modesto para os padrões atuais. COmo quase ninguém tinha câmara, era comum usar o CUSeeMe para conversar com outras pessoas, só com áudio, sem vídeo. Na i2 -- empresa da qual eu era sócio na época -- chegamos a brincar um pouco com ele. O Wallace, que era da nossa área comercial, uma vez teve um encontro ocasional na Internet com ninguém menos que o Galvão Bueno. Ele estava no Projac (estúdio da Globo), e havia sido apresentado naquele dia à então "novidade tecnológica", que já chamava atenção de muita gente.

Muitos viram logo de cara o potencial da tecnologia, pensando que em pouco tempo -- um ano, dois anos? -- ela estaria disponível para todo mundo. Obviamente, as coisas não aconteceram desta forma. Havia muito que ser feito para chegar no ponto de amadurecimento da tecnologia. Inovações no hardware, software de melhor qualidade, acesso Internet banda larga, e por aí vai. Passados nove anos, a tecnologia de VoIP parece pronta para tomar o mercado de assalto. O uso de VoIP para economizar em interurbanos está crescendo rapidamente. Mas ainda falta uma coisa, que está para chegar rapidamente, e que vai tornar realidade o sonho da telefonia IP chegando até o ponto final, que é o aparelho do usuário.

Mobilidade. Hoje, o celular já toma o espaço da telefonia fixa. O custo de um ponto de telefone fixo é baixo; o custo do telefone móvel nem tanto. Para uma empresa, não parece muito atrativo trocar um telefone fixo convencional por outro telefone fixo baseado em IP. A economia de VoIP pode ser obtida de forma mais econômica com os gateways instalados nos troncos. Mas com mobilidade, a coisa muda de figura. E é a aí que a tecnologia de WiFi entra para arrebentar.

Hoje, um telefone IP sem fio (usando WiFi) custa em torno de US$ 200,00. Quando este preço romper a barreira mágica dos US$ 100,00, o mercado vai explodir. Um telefone IP sem fio será uma verdadeira revolução na vida das empresas, liberando seus funcionários dos limites de sua mesa para circular dentro da empresa -- e porque não, para qualquer outro lugar que tenha cobertura WiFi. É claro que ainda há desafios técnicos para superar. Mas neste momento, eles parecem pequenos, porque os outros dois fatores críticos para adoção de uma tecnologia (econômico e cultural) já estarão resolvidos automaticamente. É então que a verdadeira revolução de VoIP vai acontecer.

21 de setembro de 2005

O tamanho ideal

Você acha que uma operadora de telecom deva ter conteúdo próprio? Tenho minhas dúvidas. Por trás desta pergunta, há uma série de premissas comuns no mundo corporativo:

  • A empresa precisa ter controle do cliente;
  • A empresa deve explorar todas oportunidades de negócio com o cliente;
  • A empresa deve se antecipar às necessidades do cliente...


Isoladamente, não há nada demais com estas premissas; mas quando aplicadas em conjunto, elas levam ao gigantismo, e consequentemente, a um nível de ineficiência que consome toda economia de escala que uma grande empresa poderia obter. A empresa perde o foco, e deixa de pensar em atender o seu cliente; a manutenção do status quo se torna o seu objetivo máximo.

Porque é tão difícil para uma empresa se manter no tamanho ideal? Uma das razões é a necessidade de manter o crescimento, especialmente para empresas de capital aberto. Outro motivo é o fato de ser muito difícil tomar decisões difíceis, especialmente de enxugamento. No caso das operadoras, o pânico se explica pelo temor de que o seu modelo de negócio não parece ser sustentável a longo prazo. Na telefonia fixa, a concorrência de tecnologias como WiFi e VoIP é um problema real. No mercado de telefonia móvel, há uma queda forte na receita por assinante; o retorno está vindo com o negócio de conteúdo: jogos, torpedos e principalmente a venda de ringtones.

Estes resultados sugerem que o negócio de conteúdo é essencial para a sobrevivência das empresas de telefonia. Mas eu discordo. Penso que o mercado seria muito melhor servido se as empresas de telecom focassem seus esforços em serem boas naquilo que fazem bem: fornecer a infraestrutura de comunicação. Se as margens não são aquilo que costumavam ser, ou se a empresa não é mais tão rentável, a resposta correta não é expandir procurando novos negócios -- é cortar custos e administrar melhor, trabalhando com maior eficiência. A mesma tecnologia que ameaça as empresas está aí para serví-la, abrindo novas frentes de negócio. Basta ter a coragem necessária para enfrentar os fatos, e se adequar à nova realidade que já se impõe.

20 de setembro de 2005

Confrontando os fatos

Sempre tive uma grande admiração por pessoas que demonstram liderança sem excessos ou autoritarismo. Um dos meu exemplos prediletos é o explorador irlandês Ernest Shackleton, que ficou famoso pela incrível história do Endurance -- o navio que, sob seu comando, ficou preso no gelo da Antártida. Shackleton conseguiu um feito impressionante: mesmo perdendo o navio, manteve a tripulação coesa e conseguiu retornar após 22 meses para a Inglaterra sem perder nenhum homem.

Outro exemplo fascinante é James "Jim" Stockdale, comandante da marinha americana que ficou preso por oito anos durante o auge da Guerra do Vietnã. A sua história é repleta de casos de uma resistência estóica, e de uma liderança capaz de manter seus homens coesos no meio de uma situação absolutamente desesperadora. Submetido à tortura frequente, ele não apenas se manteve absolutamente calado, mas conseguiu através de seu exemplo manter outros prisioneiros unidos.

Recentemente, uma história de Jim Stockdale foi publicada em um livro sobre empreendimentos, com o nome paradoxo de Stockdale. Trata-se do seguinte: para sobreviver a condições extremas, é preciso não ser otimista. Segundo Stockdale, não se pode permitir que o otimismo cego nos deprive da capacidade de entender quando uma situação é absolutamente desesperadora. Ele conta que, entre os seus colegas de campo de concentração, os otimistas foram os que morreram; quando esperavam o socorro para o Natal, depois para a Páscoa, depois para o Natal de novo... até que se cansaram, desencantando de viver.

O pensamento de Stockdale é realmente paradoxal. Lendo seus argumentos, nas suas próprias palavras, permite entender melhor o que ele quis dizer. Não é coincidência que ele tenha tido uma carreira acadêmica brilhante, e que depois de aposentado da marinha tenha se dedicado ao estudo de filosofia. Sua própria lição ilustra bem o conceito de estoicismo, tanto quanto outros grandes líderes, como Ghandi ou Martin Luther King. Líderes que souberam se impor pelo seu exemplo, sem autoritarismo, e sem sequer uma autoridade delegada.

18 de setembro de 2005

Simplicidade matemática

Um comentário interessante sobre a simplicidade na matemática, ou trigonometria sem senos ou cosenos: "Unfortunately, mathematics lectures at Cambridge left me with the permanent belief that mathematicians' ideas of what is simple and what is complex merely illustrate the fact that physics and engineering use math, but they use a useful subset (which changes with time) and do not necessarily buy into ideas which mathematicians regard as self-evident.".

Também tive esta experiência com alguma frequência, especialmente nos poucos meses em que estudei na Faculdade de Física da UFMG. E é verdade; os físicos mais graduados da escola demonstravam uma impaciência enorme com qualquer um que não se mostrasse capaz de entender imediatamente a simplicidade evidente de alguns conceitos. Por que será? Simples consequência de estarem tão imersos neste conhecimento a ponto de terem-no como óbvio, ou apenas a mostra de que a mente das pessoas é estruturada de forma totalmente diferente? Acredito na segunda explicação; físicos teóricos e matemáticos tem uma visão especial, uma compreensão da matemática pura que a maioria das pessoas não compartilha. Infelizmente, estas mesmas pessoas tem suas limitações, e são frequentemente incapazes de se comunicar com clareza com outras pessoas. Resultado? Professores impacientes, alunos relapsos. Perdemos todos.

30 de julho de 2005

Com quantos planetas se faz um sistema solar

Se você é do tempo que a resposta eram "nove", fique alerta! Durante a última semana, mais dois objetos foram descobertos nos limites do sistema solar: o 2003EL61 e o 2003UB313. Obviamente, estes nomes são provisórios, e seguem um critério científico complicado. Aliás, dar nomes para objetos astronômicos é complicado. E curiosamente, com estas descobertas, também ficou mais difícil definir o que é um planeta. Estas descobertas só estão sendo possíveis graças aos avanços recentes da tecnologia de câmaras digitas (CCDs), que são altamente sensíveis. De acordo com os astrônomos, mais descobertas como estas podem ser esperadas. Finalmente, estamos conhecendo nossa vizinhança estelar um pouco melhor...

Quanto vale um cliente VoIP?

De acordo com Robert Cringely, cerca de US$ 150, que é mais ou menos quanto cada cliente vale de acordo com a oferta de aquisição do Skype pela News Corporation, de Rupert Murdoch. Cringely fez esta conta em um comentário sobre a possível aquisição da Skype por Murdoch. Em resumo, a oferta de compra traduz alguns fatores importantes:

  • Valida o mercado de VoIP -- se Murdoch quer comprar, deve valer alguma coisa;
  • Dá uma baliza de preço. No setor de telecomunicações, números como a receita média por assinante e o preço por assinante são amplamente conhecidos e discutidos; o número mágico de 150 dólares por assinante serve como marco para o mercado de VoIP, e estabelece um parâmetro para avaliação de empresas concorrentes como a Vonage e outras.
No fim das contas, o negócio não saiu; mas o fato é que a Skype está à venda. A quem interessa comprar a Skype? Provedores de banda larga são os candidatos naturais, mas Cringely aponta para um outro comprador possível: operadoras de celular. Faz sentido? Talvez; uma operadora VoIP como o Skype não canibaliza receita de uma operadora de celulares, mas a complementa. Implícita na discussão, está a premissa que que banda larga e mobilidade não combinam. Eu pessoalmente concordo; mesmo que os fatores técnicos que limitam a banda em aplicações wireless sejam superados, acredito que outros fatores deverão colaborar para que a rede fixa continue sendo a forma primária de acesso banda larga.

Independente de qualquer outro fator tecnológico, o fato é que a tecnologia de VoIP está amadurecendo a passos largos. Em um determinado momento, haverá massa crítica suficiente para fazer com o que o modelo de negócios de telefonia existente desmorone para dar lugar a outro. Até lá, muita coisa ainda vai acontecer. Historicamente, estas transições são sempre dolorosas, e passam por momentos de incerteza política. Porém, não há como defender os incumbentes da obsolescência econômica; nestes casos, a mão invisível do mercado age de forma implacável.

25 de julho de 2005

Idéias sobre liderança

Como a maioria das vezes, este artigo tem uma história longa... meio por curiosidade, visitei o Everything2.com. O site é um experimento anárquico. Não é uma enciclopédia, parece mais com um mural público, é uma forma de captura o pensamento coletivo em assuntos abrangentes, quase aleatórios. Uma boa dica para quem tem curiosidade e de preferência, algum tempo disponível.

Li uma página (Current Leadership Theory@Everything2.com) com comentários sobre a teoria de liderança. A página lembra um resumo de trabalho de escola, o que não é um demérito -- afinal, já é um ponto de partida para uma pesquisa mais aprofundada. Entre os pontos citados, achei interessante a classificação de Hersey & Blanchar, chamada de modelo de liderança situacional. Segundo eles, existem quatro estilos de liderança, que podem ser traduzidos grosseiramente assim: diretivo, orientativo, suportivo e delegativo.

O conceito de liderança me interessa bastante, entre outras coisas porque é uma área na qual eu tive uma grande dificuldade em entender uma coisa básica: para liderar não é preciso competência técnica. É preciso competência gerencial. Há lideres que possuem as duas coisas. Há outros, bem, que não possuem nem uma nem outra -- estes não costumam durar muito. Mas uma coisa, em princípio, não tem nada a ver com a outra...

Voltando à liderança situacional, para cada tipo de liderança, há um equivalente no "liderado":

  1. baixa competência, baixo comprometimento;
  2. alguma competência, baixo comprometimento;
  3. alta competência, comprometimento variável;
  4. alta competência, alto compromentimento.
Relacionando os números entre o líder e o liderado, temos:
  1. Para uma pessoa de baixa competência e baixo comprometimento, a liderança deve ser direcionadora, ou "directing". Você deve descrever exatamente o que a pessoa deve fazer.
  2. Para uma pessoa de alguma competência e baixo comprometimento, a liderança deve ser exercida de forma orientadora (coaching, ou 'treinar' a pessoa).
  3. Para uma pessoa de alta competência mas com comprometimento variável, a liderança deve ser suportadora (supporting).
  4. Para uma pessoa de alta competência e alto comprometimento... a liderança deve ser delegadora (delegating).
O que acontece quando o casamento entre os perfis não ocorre? Simples: pessoas desmotivadas, trabalhos mal feitos. Porém, não se pode esperar que um funcionário se adapte ao líder. Pelo contrário: para obter o melhor da equipe, é preciso que líder se adapte aos liderados. Pode parecer um contrasenso, mas é o mínimo que se espera de um líder que queira obter o melhor rendimento de seus subordinados.

Como desenvolver a percepção correta? Em princípio, o líder deve desenvolver habilidades que hoje já são tidas como básicas: capacidade de ouvir, capacidade de perceber, e principalmente, capacidade de se comunicar no nível correto. Um funcionário novato, com grande potencial, seria rapidamente queimado por um líder que quisesse imediatamente delegar atividades, sem que ele tenha o preparo adequado. Da mesma forma, um analista experiente se sente frustrado ao receber instruções passo a passo sobre como realizar uma atividade. Com observação e bom senso, o líder pode perceber dentro de sua equipe a forma certa de tratar com cada um. Mas o mais importante mesmo é perceber que este tipo de ação transcende as relações formais de liderança, e deve permear outras relações - com nossos amigos, nossas famílias, e mesmo naqueles encontros casuais onde nos relacionamos com outros, deixando uma impressão indelével sobre quem somos.

Mudanças no blog

Já repararam quantas páginas na Web jamais são atualizadas? E a quantidade de blogs abandonados? Pois é, manter um blog em dia não é fácil. Requer muito mais que entusiasmo, requer disciplina. Um dos maiores inimigos é o perfeccionismo -- a vontade de escrever um artigo definitivo sobre o assunto por dia. Por isso, inúmeros rascunhos e artigos mal acabados ficam guardados indefinidamente na fila, até perderem o sentido totalmente...

Por isso tudo, o blog está mudando (de novo). Já prometi isso antes, mas agora espero cumprir e voltar às origens. "Rascunhos Rotos" são notas e fragmentos de qualidade variável, muitas vezes duvidosa. Pelo menos assim, o blog fica vivo...

p.s. Se você recebeu uma mensagem com este texto, peço desculpas... minha lista de envio contém somente o endereço de amigos, ou de pessoas que eu consultei antes de incluir na lista. Se você se sente incomodado, é só falar, e eu retiro da lista, ok? Envie a mensagem para carribeiro@gmail.com.

17 de julho de 2005

Nomes de domínio e números de telefone

Via Phil Windley, uma observação interessante: Phil em 2010, seu nome de domínio pessoal vai ser mais importante do que seu número de telefone. Talvez isso já seja verdade para algumas pessoas (como o próprio Windley -- é só ver o domínio que ele usa). A observação lembra outra, sobre a qual eu tenho conversado com alguma frequência: qual o papel das operadoras em um mundo de telefonia IP?

Hoje, as operadoras de telefonia oferecem uma solução altamente verticalizada: elas oferecem a infraestrutura completa, e também oferecem os meios para identificar os usuários. Uma das consequências da tecnologia de telefonia IP é a quebra deste modelo, pois a infraestrutura muda completamente. A evolução ainda não está clara -- pode passar por um modelo tradicional (baseado em NGN), ou pode passar por um modelo "peer-to-peer" como o utilizado pelo Skype. Mas mesmo em uma rede P2P, é necessário algum meio de identificar o usuário, seja pelo seu número, seja pelo nome de usuário (como no Skype), seja pelo seu email (como é a proposta da Cisco). Onde fica este diretório de usuários, e qual a sua estrutura? Seja qual for a solução, este é um problema que é melhor administrado por uma entidade central -- que pode ser uma operadora de telefonia, ou um "domain registry". Talvez possa soar como um papel muito reduzido para quem hoje domina totalmente a estrutura do serviço, mas ainda assim, é um papel estratégico, e por isso valioso.

25 de junho de 2005

Admirando a lua cheia

Ontem eu estava viajando de volta para casa, durante a noite, com um céu limpo e uma lua cheia maravilhosa. Passando sobre uma represa que há no caminho, uma cena perfeita: a lua cheia, baixa no céu, refletindo sobre o espelho d'água. Uma cena maravilhosa.

Ao chegar em casa, coincidentemente, vi um comentário sobre a ilusão de ótica que faz a lua parecer maior quando está no horizonte. Ao que consta, a lua está em um ponto particularmente favorável de sua órbita para a visualização de um efeito que ainda não tem uma explicação universalmente aceita. Há quem ache que o motivo é o efeito Ponzo, uma ilusão que afeta a nossa percepção de objetos que passam pelo céu. Vários objetos, como nuvens, pássaros ou aviões, se movimentam a uma altura constante do solo, e diminuem sensivelmente de tamanho à medida que se distanciam de nós. Devido à distância que a Lua se encontra, não há variação perceptível de tamanho; o cérebro então "compensa" a diferença e aumenta o seu tamanho aparente quando ela se encontra "longe", ou seja, no horizonte. Outra explicação se baseia em um ajuste automático de distância feito pelo cérebro para possibilitar a mudança rápida de foco. Este efeito, conhecido pelo nome de macropsia oculomotor, tem sua explicação baseada na evolução humana e na própria geometria do nosso sistema ocular.

Qualquer que seja a explicação, a lua cheia, próxima ao horizonte, tem uma mística admirável. Como a sua visão sobre o espelho d'água ilustra maravilhosamente...

1 de junho de 2005

Sozinho em uma multidão

Hoje estive em São Paulo a trabalho. Parece estranho para mim, mas fiquei três anos sem ir a SP para nada. A última vez (que eu me lembre) foi para a Telexpo de 2002. Hoje, voltei ao roteiro familiar, indo ao escritório da Cisco, próximo à Marginal Pinheiros. Curiosamente, achei que as coisas estavam mais ou menos do mesmo jeito, apesar do crescimento contínuo da cidade. Mas o que me assustou mesmo foi o Aeroporto de Congonhas.

A obra de reforma do Aeroporto de Congonhas é, sem dúvida, um desafio monumental: atualizar um aeroporto encravado dentro de uma cidade com o metro quadrado mais caro do Brasil não é fácil. Para quem ficou três anos sem ir lá, as dimensões da obra assustam, por que fica uma impressão curiosa: como é que o aeroporto dava conta do volume de vôos antes, com muito menos estrutura? A resposta é simples, ele não dava conta, e a reforma era inevitável. Porém, eu acredito que com a reforma, o local parece ter perdido alguma coisa.

Se você perguntar para qualquer 'frequent flyer' o que ele achava do Aeroporto de Congonhas três anos atrás, imagino que a opinião seja unânime: uma loucura, subdimensionado, engarrafado, com salas de espera apertadas, etc. O que se vê agora é um aeroporto mais moderno, com grandes salas de espera, e túneis mais modernos de acesso às aeronaves. O curioso é que o local continua uma loucura, mas pior; o local se tornou mais impessoal, mais asséptico, quase surreal.

As antigas salas de espera de Congonhas eram apertadas, e tinham pouco espaço para sentar. Porém, por serem várias salas divididas, ficava uma sensação um pouco mais humana. Hoje, em uma sala imensa, misturam-se vôos, companhias e destinos em uma massa única de gente, que atordoa.

Por quê estou escrevendo sobre tudo isso? Acho que esta sensação revela um pouco mais sobre o desconforto humano diante de obras faraônicas, de locais que excedem a nossa capacidade de se sentir à vontade. Talvez como um sonho de projeto esta sensação não seja perceptível, mas na prática, acho que esta sensação é mais comum do que os arquitetos e engenheiros gostariam de admitir. Alguns lugares são frios e desumanos, e quanto maiores, piores ficam. Outros são naturalmente aconchegantes e confortáveis, e talvez neste caso o tamanho não faça a menor diferença. Não sei. Mas ficou para mim a sensação de que o Aeroporto de Congonhas se tornou um lugar absolutamente frio, um lugar para se ficar o menor tempo possível, e onde o tempo de espera parece eterno.